Aos 91 anos, maquinista aposentado trilha a vida em meio à modernidade

Fogaça foi também limpador de locomotiva e foguista de ferrovia. 

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Pelos trilhos trafegou por muito tempo a história de José de Oliveira Fogaça, um dos maquinistas mais antigos da Ferrovia Alta Sorocabana. Aposentado, com 91 anos de idade e com apenas quatro meses de estudos nos bancos escolares de sua época, ele diz, com voz firme: “Me faltou um ‘Dr.’ no nome”.

Porém, mesmo sem ter frequentado a escola e se tornado um “doutor”, sua vivência nas estradas férreas da Alta Sorocabana lhe trouxe um aprendizado que não se ensina nas universidades. Já o que se ensina, ele fez questão de correr atrás.

Locomotiva, fumaça, trilhos e cargas se misturam a temas atuais sobre ciência, leis e outras experiências relativas à vida moderna que o aposentado faz questão de aprender no dia-a-dia. E foi com uma revista científica na mão que ele recebeu a reportagem do iFronteira em sua casa, na Vila Marcondes.

“Não posso ser fechado, a mídia oferece muita coisa e por isso leio de tudo, gosto de ler, estudar, entender as coisas. Sou curioso, sempre fui”, afirma Fogaça.

Nascido em 1921, na cidade de Canitar, interior do Estado, o maquinista aposentado se tornou independente desde cedo. Pouco antes de completar três anos de idade, ele perdeu o pai. Já aos 16 anos, perdeu a mãe. “Andava a procura de serviço. Já fui engraxate, trabalhei em padaria, sempre fazia alguma coisa”, relembra.

Aos 18 ele passou a ser reservista do Exército, onde permaneceu por três anos. Segundo ele, a formalidade militar era necessária para ser aceito, com o mínimo de respeito, na sociedade.

Já em 1943 ele veio para a região. Primeiro foi para Santo Anastácio e, depois, para Presidente Prudente. Em ambas as cidades o seu ofício era sobre os trilhos. Primeiro, ele foi limpador de locomotiva, na “Maria Fumaça”, depois foguista, até chegar a maquinista.

“Tinha um almanaque de promoções, era muito organizado”, narra Fogaça. No entanto, ainda que com cargos cada vez melhores, as funções em todos eles não eram fáceis. “Era um trabalho muito braçal e era muito quente, muito vapor, por isso chamava ‘Maria Fumaça’. Mas não tinha emprego naquela época e esse era o trabalho de ‘burro’, de quem não estudava”, recorda.

As horas de trabalho também eram extensas. Ele explica que, por contrato, teria que trabalhar oito horas diárias, no entanto, trabalhava 16. As horas extras eram pagas, mas caso não aceitasse cumpri-las, era punido. “Tinha o ‘chamador’, um funcionário que buscava você onde você estivesse, até em casa de tolerância ele ia. O pessoal tentava se esconder, mas não tinha jeito, ele encontrava”, conta.

Segundo Fogaça, eram 16 horas trabalhadas e apenas oito de descanso. “Era um trabalho escravo, não era fácil, mas eu tinha que comer, precisava do dinheiro. E pelo dinheiro fazíamos isso”.

À esposa, ternura

Sobre o trabalho, Fogaça é firme em suas palavras, conta suas histórias em ordem cronológica, fiel nas datas, com a mesma expressão. Já em relação à sua esposa, as palavras se perdem em meio à emoção.

Ele conta, entre lágrimas, que em seu chapéu de trabalho constavam as siglas “E.F.S.”, de “Estrada de Ferro Sorocabana”. Mas para o casal, era uma forma de sua esposa se sentir amada ao olhar para ele, mesmo sujo, com as roupas do ofício, e ler: “Eu Faço Sorrir”.

“Eu chegava do trabalho suado, corria para me lavar no cocho, passava perfume e ia flertar, eu queria que ela soubesse que eu a faria feliz”, conta emocionado.

Em 1948, eles se casaram. Foram 57 anos de vida conjugal, até sua esposa morrer, de câncer. “Foram sete anos de muita dor, sinto muito a falta dela, era minha companheira, fazíamos tudo juntos”, relata.

Aos 91 anos, disposição

Com a morte da esposa, Fogaça conta que o que o mantém vivo hoje é a sua fé. Além dos livros de ciência, o que o ocupa na maior parte de seu dia são os estudos bíblicos. “Sempre tem algo para aprender”, menciona.

Além das leituras, ele frequenta grupos dominicais e assim como a dedicação a Deus, sua saúde também é prioridade. Todos os dias Fogaça faz sua caminhada diária. Ele conta que vai de casa, na Vila Marcondes, até a Catedral, no Centro, e às vezes até a Santa Casa da cidade. “Também não vou correndo, né?”, brinca.

Com três filhos, sete netos e um bisneto, Fogaça vive sozinho, por opção. Ele limpa a casa, lava suas roupas, cozinha e até costura. “Meus filhos querem que eu vá morar com eles, mas quero ficar aqui, essa casa traz muitas lembranças da minha esposa”, diz.

E hoje, mesmo sem o seu “Dr.” antes do nome, ele é capaz de ensinar não só sobre história, religião e temas da atualidade, mas principalmente sobre a arte de saber viver. “Saber como viver é fácil, viver a vida é que é difícil”, encerra.

Fonte http://www.ifronteira.com/imais-perfil-43549

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Comentário de Aranei Cyrillo Gutterres em 22 outubro 2013 às 16:06

Este senhor tem muitas histórias de vida e de Estrada de Ferro. Seria um imenso Prazer Ouvi-las!

Comentário de LEONAM DA SILVA FERREIRA em 21 outubro 2013 às 17:32

  REGISTRO MINHA GRANDE ADMIRAÇÃO E CARINHO POR TUDO FEITO POR ESSE SENHOR.  MUITO DIGNO.

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