De Vitória a Belo Horizonte pelo trem

 Depois de muitos anos resolvi refazer a viagem de trem entre Vitória e Belo Horizonte. Este é um serviço prestado pela Vale  que se orgulha de ser a única empresa no Brasil a operar um sistema de transporte ferroviário diário de passageiros.
A viagem foi  mais para desfrutar da bela paisagem e exercitar a prática da fotografia do que pelo saudosismo, uma vez que já tinha realizado esse percurso outras vezes, acompanhado dos filhos pequenos e as experiencias naquela época não foram muito favoráveis, particularmente uma delas feita nos dias antecedentes ao Ano Novo. Além disso a viagem estava programada para durar 13 horas, o que não deixa de ser digamos, cansativo. Ás 6.30 h cheguei á Estação Pedro Nolasco já com o bilhete comprado de vespera, na classe executiva,  na poltona nº 39.

Havia um número pequeno de passageiros para as classes executiva e econômica talvez em função do dia da semana-5ª feira- sendo esperado maior movimentos nas sextas feiras e sábados.
Ás 7.04 em ponto, com um tranco leve e suave, a locomotiva 886 http://pt.wikipedia.org/wiki/BB40-2 deu o seu apito http://vfco.brazilia.jor.br/locos/sons/BuzinaAlco.mp3 e colocou em marcha  a composição de 14 vagões..para um percurso de 654 km.

O vagão EC 2 no qual eu estava instalado é confortável, espaçoso, com poltronas de tecido felpudo e limpas e de capacidade para 80 pessoas.O carro é dotado de ar condicionado e de dois banheiros, masculino e feminino, nas varandas anexas.Avisos importantes são veiculados pelo sistema de som alertando, sobretudo para o cuidado com as crianças. Sacolinhas de plástico são distribuidas dando enfase á proteção do meio ambiente e logo no começo é encarecidamente pedido que não se atirem objetos ao exterior e propositadamente grandes coletores para  lixo selecionado, estão disponíveis nas varandas.O passageiro pode, pelo 0800 285 7000 se comunicar com o  "Alô Ferrovia" e tomar toda e qualquer informação necessária, dar sugestões, elogios, etc.

Circula a todo momento a exemplo dos aviões, um carrinho com água,sucos, refrigerantes, biscoitos, café, leite e outras guloseimas que amenizam o passar do tempo.O condutor tambem se encarrega de agendar o almoço que é servido em marmitas de alimínio.

Os banheiros são limpos, com piso de material inoxidável, pia, torneiras e saboneteiras tudo  em aço inox.


 





















O chefe do trem, Sergio e seu ajudante se mostraram atenciosos e sempre procurando atender com educação os diversos questinamentos surgidos.
A viagem prossegue numa velocidade até surpreendente para as condições do traçado da ferrovia algo entre  6o e 67 km/h. Os trilhos bem conservados são submetidos a um trabalho constante, haja vista o tamanho das composições de Minas para o E.Santo com enormes composições de até 120 ou 140 vagões. Pude comprovar que alem dos vagões de transporte de minério, outras cargas pesadas como bobinas e grãos são transportadas.Enormes vagões graneleriros da FCA( Ferrovia Centro Atlantica) e mesmo as da Vale transportam produtos da Multigrain e da Bunge.
Minutos depois o trem já estava passando pelas estações aduaneiras situadas ao longo da Rodovia do Contorno, onde milhares de automóveis importados pelo Porto de Vitória ficam estocados. Visualizamos o belo mangue formado pela baia de Vitória e a imensa planície ao largo do Rio Santa Maria. Cinquenta minutos após a saída estamos na Estação de Fundão. O cenário é sempre verde, com muitas árvores , cafezais, bananeiras, coqueiros a ao fundo aviatamos várias formações rochosas entre elas GoiapabaAçu.
Cruzamos sempre com as enormes composições de transporte de minério de ferro.

Ás 08.30 passamos pela Estação Piarque Açu onde embarcam ou desembarcam os passageiros com destino a João Neiva, Linhares e Ibiraçu. Perto da nove horas pudemos avistar o caudaloso Rio Doce, que se apresentava som águas barrentas devido ás fortes chuvas de ultimamente. Avistamos dragas de extração de areia, pescadores, casinhas nas margens e criação de gado bovino.

 Seguindo sempre na velocidade de 67 km/h, como se disse antes razoável para o traçado montanhoso  e curvo do caminho, avistamos a cidade de Colatina que surge do nada, no meio dos morros e vales.



                                                                   Estação Colatina
A seguir passamos pela Estação Itapina, lugarejo que parece estar desaparecendo no tempo com sua pequena estação  desativada, com suas janelas e portas lacradas numa clara demonstração de abandono, conforme se vê na foto abaixo.


Daí para frente tenho a impressão que o rio vai diminuindo de largura pois, vê-se nitidamente a outra margem mais próxima.Parada Mascarenhas foi a estação seguinte, um lugarejo com  duas dúzias de casas, umas com quintais enormes com grandes varais a secar roupas coloridas.Ruazinhas sem calçamento mas com uma grande limha de transmissão acima de nossas cabeças, sinal que a Usina de Aimorés está próxima. Logo avistamos a cidade de Baixo Guandu, com sua grande planície verdejante, muitos bovinos de corte pastando. Foi com um longo apito, caracteristica que se aplica á todas ciddes e vilarejos, que o trem adentrou na Estação de Baixo Guandu, na foto abaixo.


Ás 10.15 depois dessa bela curva abaixo chegamos na Estação Aimorés, primeira cidade já no território mineiro, sempre com o grande rio á direita.


A cidade de Aimorés(fotos de sua estação abaixo) conforme se vê das janelas do trem ,possui um relevo plano e com ruas bem traçadas. Uma das características da cidade, assim com quase todas do Vale do Rio Doce, é a presença de grande quantidade de bicicletas a circular pelas ruas.

Á essa altura da viagem já tinha circulado o encarregado de agendar o almoço pois a fome estava apertando e assim fiz meu pedido da refeição. O percurso corria com sol forte e alguns minutos depois chegmos na cidade de Resplendor, tambem ás margens do rio. Deve ter havido um incremento turístico nestas regiões em consequencia da construção da Usina da Aimorés, (pertencente á Cia Energética de Minas Gerais-CEMIG) o que provocou o represamento do rio e assim imenso volume de água ficou disponível para formação de clubes de pesca, restaurantes e lanchonetes á beira rio.

Resplendor parece que aproveitou bem as condições favoráveis e observei vários estabelecimentos desse gênero á beira rio( na foto acima). As paradas nas estações raramente ultrapassam os dois minutos, tempo suficiente para embarque e desembarque e assim a locomotiva se colocou em marcha, ganhando velocidade e chegando á Conselheiro Pena.
Conselheiro Pena, terra do meu amigo Moreira, colega de faculdade que não vejo há anos e que, soube depois, se tornou bispo do camdomblé. Salve  grande batuqueiro e colega das rodas de samba dos tempos da faculdade. Novamente em marcha,a composição e ás 12.15, passando sucessivamente por Barra do Cuité e São Tomé do Rio Doce, pequenas estações, me dirigí ao vagão restaurante para saciar a fome.


A comida, servida em marmitas de alumínio, pode-se dizer apresentou-se de muito bom aspecto e de fato estava saborosa- não sei se tambem devido á fome- mas consistiu-se de arroz,feijão, farofa, salada e um bife de carne suina  com cebolas. Comí com moderação acompanhado da Miriam, moradora de Baixo Guandu a quem pedi que fizesse a  minha foto. Conversamos muito e descobri que ela passara uma temporada na França, mais precisamente em Lille, cidade onde hoje mora meu filho Danilo que está cursando doutorado em Física na Universidade Nord-Calais.Ela se comprometeu a passar  endereços de contatos na França para facilitar minha futura ida para aquele país, bem como de um grnde físico francês que mora em Paris e que certamente poderá ser útil ao Danilo.

Conversamos por muito tempo e assim chegamos á estação de Tumiritinga, onde muitas doceiras aproveitam a parada do trem para vender seus excelentes doces. Comprei um pé de moleque e um de maracujá.


A proxima parada foi em Governador Valadares, a maior cidade do vale do Rio Doce, com sua grande estação.Em época de férias, feriados prolongados, Natal e Ano Novo, esta estação fica intransitável tamanha a quantidade de gente que vai e vem para as praias capixabas.


A cidade ainda se destaca em seu turismo. Em Governador Valadares está o Pico da Ibituruna. Com 1 123 metros de altitude, é um dos pontos mais altos do Leste mineiro. É sede de uma das etapas do Campeonato Brasileiro de Voo Livre sendo que os competidores saltam do Pico, de onde se pode avistar toda a região do Vale do Rio Doce, cujo leito está aos pés do pico. Também sedia vários campeonatos internacionais de voo livre.
Em Governador Valadares o trem para por 8 minutos devido exatamente ao grande movimento.A cidade segundo o último censo tem cerca de 300 milhabitantes, com IDH 0,772 e PIB per capita de R$ 9.984,00 tambem segundo o IBGE.Em 1937, a ligação Vitória-Minas com a Central do Brasil colocou o atual município em conexão com grandes centros consumidores, consolidando sua situação privilegiada na região. A atividade econômica de Figueira, baseada na exploração da mica, madeira, carvão vegetal e pedras preciosas promoveu o processo de urbanização do Distrito, resultando na fixação de contingentes humanos.


A atual cidade de Governador Valadares já possuiu vários nomes antes de chegar a sua atual denominação. Foram alguns deles:
  • Arraial de Porto de Dom Manuel - 1734
  • Porto das Canoas - 1808
  • Santo Antônio da Figueira - 23 de setembro de 1888 (Lei Provincial)
  • Distrito de Santo Antônio do Bonsucesso - pela Lei Estadual de 14 de setembro de 1889
  • Figueira - 7 de setembro de 1923, pela Lei 843
  • Figueira do Rio Doce - 1937 - Decreto do então governador Benedito Valadares
Seu atual nome foi decretado juntamente com sua emancipação, ocorrida em 30 de janeiro do ano de 1938, permanecendo "Governador Valadares" até os tempos atuais, em tributo ao governador Benedito Valadares
Seguindo a viagem, ás 13.40, notamos que o rio agora corre pelo lado esquedro do trem, com mudança do relevo topográfico e o rio um pouco mais estreito, O sol castigava um pouco e para fugir dele fiquei mais tempo na minha poltrona e aproveitei para cochilar um pouco. embalado pelo clac-clac do barulho das rodas nos trilhos.  Assim perdi algumas fotos até a cidade de Antônio Dias-foto  abaixo.










 


Daqui em diante a paisagem muda, não permitindo mais largos horizontes e sim morros verdejantes e muita pastagem.Ao longo da viagem constatamos a presença de inúmeras equipes de mnutenção da ferrovia, vital para o bom funcionamento e segurança da carga e passageiros.
De tantos em tantos km, grandes pátios de manobra e estacionamento são vistos numa demonstração da pujança e grandeza da Vale.



As composições de carga não param e são uma constante na viagem .
O carregamento de toras de madeira tambem é uma atividade constante.

O tempo demora a passar enquanto a paisagem vai se desenrolando com as sucessivas estações de Pedra Corrida, Periquito e Frederico Sellow(abaixo). O sol da tarde vai esparramando suas luzes pelos morros e florestas, permitindo fotos de belo efeito visual.
Uma das constantes da viagem são os inúmeros túneis que o trem atravessa. Alguns longos e completamente escuros, outros diminutos e de passagem rápida.
As 15.50 o trem chegou á estação de Intendente Câmara, na grande cidade de Ipatinga. O sol ainda estava forte e muitas pessoas alí desceram, vindas sobretudo de Valadares e na maioria trabalhadores da companhia.Tambem muitos embarcaram com destino a Belo Horizonte.Muitos vagões carregados com pesadas bobinas de aço, provenientes da Usiminas e Belgo Mineira.O desenvolvimento da região deve-se às grandes empresas locais, como a ArcelorMittal Timóteo e principalmente a Usiminas, localizada no próprio município. Até 1964 estas duas ficavam em território da cidade vizinha, Coronel Fabriciano, mas com a emancipação política de Timóteo e Ipatinga, o município deixou de sediá-las. Atualmente município é formado pela Sede e pelo distrito de Barra Alegre. A cidade faz parte da Região Metropolitana do Vale do Aço, que ultrapassa os 449 340 habitantes. Além das quatro principais cidades (Coronel Fabriciano, Ipatinga, Santana do Paraíso e Timóteo), há outras 22 no colar metropolitano.
Saindo de Ipatinga observamos que os trilhos da ferrovia correm por muitos km, paralelalmente á rodovia que liga o vale do Aço `BR 262, com destino a belo Horizonte.Daqui em diante não se vê mis o grande rio e sim  muita floresta e canions com este abaixo, alem de exemplares fa fauna.

As 17.55, já escuro, passamos por parada Rio Piracicaba, perto de João Monlevade onde tambem se localizam siderúrgicas de grande porte. A estação seguinte chama-se Estação Dois Irmãos e não foi possível ver nada devido a completa escuridão. Em outra ocaião, fazendo o caminho inverso fotografarei a grande mina de extração de ferro e os incríveis pontilhoes que se encontram no trecho até Belo Horizonte.
A chegada á capital mineira foi ás 20.45 depois dessa longa mas interessante viagem, demorada mesmo porque, em vários trechos, o trem para nos desvios para dar pasagem aos outros comboios em sentido contrário, carregados de minério e mercadorias diversas que são as riquesas do país, com destino ao porto de Praia Mole da Vale em Vitória e que se destinam aos inúmeros países.
Nesta viagem conhecí pesoas interessantes e pude assim aumentar o círculo de amizades. Recomendo a todos amantes das ferrovias que façam esta viagem, inesquecível para as crianças e enriquecedora para os adultos.
A estação de Belo Horizonte possui uma beleza arquitetônica especial, com seu estilo inglês clássico e abriga o Museu de Artes e Ofícios que deve ser visitado por todos  para aumentar a cultura geral.As fotos abaixo são da Estação Central e mostram toda sua beleza.








 
 








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Comentário de Paulo Barbosa em 12 abril 2014 às 20:20

Olá Ulisses, gostei do seu relato a respeito da sua viagem de Cariacica até Belo Horizonte, sobre os trilhos da Companhia Vale do Rio Doce.

Esse é um sonho meu também, porém não pretendo ir a tão longe.

Estou pensando em ir talvez no máximo até Governador Valadares, o que deve acontecer, se Deus permitir na próxima semana.

Um abraço.

Paulo Barbosa - Americana SP.

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